Nesta obra de 1902, no original alemão Ein Fall von hysterischem Stupor bei einer Untersuchungsgefangenen, Jung apresenta um dos primeiros estudos de caso que redigiu enquanto assistente na clínica psiquiátrica do Burghölzli, em Zurique. O texto acompanha uma reclusa que, sob as condições da detenção, entra num estado de imobilidade e ausência que a psiquiatria da época classificava como estupor histérico. O interesse duradouro do estudo reside menos no quadro clínico do que na leitura que Jung dele faz: ele observa que o recolhimento da doente reproduz, no plano psíquico, o próprio cárcere que a mantém presa, como se o corpo obedecesse a uma condenação interior paralela à condenação legal. Esta atenção ao valor simbólico do sintoma, a ideia de que a doença comunica algo que a consciência não consegue formular, anuncia toda a obra posterior sobre sonhos e imagens do inconsciente. Já aqui Jung recusa dissociar o sintoma do sentido, tratando a paciente como uma pessoa inteira colocada numa situação insuportável e não como um mero agregado de perturbações fisiológicas.
O rigor descritivo do jovem clínico convive, neste caso, com uma sensibilidade nova para as circunstâncias sociais e institucionais em que a doença se manifesta. Jung mostra que o ambiente da prisão não é um pano de fundo neutro mas um fator que molda e agrava o próprio quadro psíquico, uma tese que retomaria mais tarde ao estudar o efeito dos asilos sobre os doentes internados. A leitura do estupor como retirada para uma prisão interior antecipa a noção de que a psique reage às pressões do mundo produzindo formações que têm lógica própria. O caso serve assim de laboratório em miniatura para questões que ocupariam Jung durante décadas, da autonomia dos processos inconscientes à relação entre conflito psíquico e expressão somática. O posfácio situa este primeiro exercício clínico no arco que conduz das investigações do Burghölzli às formulações metafísicas tardias como Aion e a sincronicidade.
Esta tradução moderna vem acompanhada de um posfácio do tradutor, de um índice filosófico da terminologia de Jung e de uma cronologia da sua vida e obra. A edição oferece uma versão fresca e acessível dos primeiros escritos científicos de Jung, concebidos originalmente para um público académico, e explora os fundamentos filosóficos, o contexto histórico e o impacto duradouro das suas ideias, do trabalho clínico inicial sob a influência de Freud até à filosofia metafísica tardia.