Uma tradução moderna da célebre obra de Descartes de 1619, Compêndio de Música ou Tratado de Música (Compendium musicæ). Esta edição inclui um posfácio do tradutor, uma cronologia da vida de Descartes e resumos de cada uma de suas obras.
O Tratado de Música, concluído em 1619, quando Descartes tinha apenas vinte e três anos, representa sua primeira obra de maior importância e já revela o interesse que manteria ao longo de toda a vida pelos fundamentos matemáticos dos fenômenos naturais. Nesse texto de juventude, procura explicar a harmonia musical por meio de princípios matemáticos, sustentando que o prazer proporcionado pela música pode ser compreendido mediante uma análise racional dos sons e das relações numéricas que os unem. Embora o tratado não tenha sido publicado durante sua vida, ele mostra uma das primeiras tentativas de Descartes de aplicar o raciocínio matemático à experiência sensível e antecipa problemas que mais tarde ocupariam um lugar central em sua filosofia. A obra examina a natureza do som, da consonância e da dissonância a partir de uma perspectiva matemática, tratando a teoria musical como um ponto de encontro entre a abstração dos números e a percepção humana. Constitui, assim, uma das primeiras tentativas sistemáticas de analisar a estética musical segundo princípios de caráter científico.
Descartes escreveu o tratado durante sua permanência em Breda, mas a obra só foi impressa depois de sua morte. Nela, investiga a relação entre música e matemática e procura demonstrar de que maneira a estrutura musical pode ser compreendida por meio de proporções numéricas. Essas ideias exerceriam influência sobre discussões posteriores acerca dos fundamentos matemáticos da música. Descartes também sustenta que a música é capaz de despertar diferentes paixões por meio de variações no tempo, na intensidade e na disposição dos sons. Tristeza, alegria ou medo podem surgir de determinadas combinações de harmonia, ritmo e proporção.
O texto analisa propriedades fundamentais do som, como altura e duração, para mostrar de que modo elas afetam a resposta emocional do ouvinte. Descartes discute ainda a importância da proporção, da simetria e da variedade na produção de sons agradáveis. Examina conceitos como consonância, dissonância e divisão dos sons em intervalos oitavas, quintas e terças tomando como ponto de partida as relações matemáticas que formam a base da harmonia. Por fim, considera a maneira como a estrutura da música, sobretudo sua métrica e seu ritmo, pode provocar respostas físicas, como o impulso de dançar. A música é assim relacionada à experiência humana das emoções e, ainda de forma embrionária, a questões que mais tarde reapareceriam em sua concepção da relação entre corpo e alma e na análise filosófica da experiência.
Um dos aspectos mais interessantes da obra está na maneira como ela liga a teoria musical medieval ao novo pensamento científico que começava a se formar no início do século XVII. Descartes procura explicar por que certas combinações de tons agradam ao ouvido enquanto outras produzem dissonância, buscando a resposta em proporções matemáticas em vez de recorrer ao tradicional misticismo pitagórico. O manuscrito só foi publicado em 1650, mas várias das ideias nele desenvolvidas voltariam a aparecer nas reflexões posteriores de Descartes sobre matemática e percepção sensorial.
Essa primeira investigação da teoria musical relaciona se estreitamente com a filosofia que Descartes desenvolveria na maturidade. Seu exame sistemático do som e da harmonia antecipa a busca por princípios claros e racionais capazes de ordenar a experiência. O tratado mostra um jovem Descartes já às voltas com uma questão que permaneceria central em seu pensamento: a relação entre a verdade matemática e aquilo que conhecemos por meio dos sentidos.