O conflito entre Irã e Iraque, ocorrido entre 1980 e 1988, foi uma das guerras mais longas e devastadoras do século XX, com raízes profundas em disputas territoriais, rivalidades históricas e tensões ideológicas. A origem imediata está na disputa pelo Shatt al-Arab, um canal estratégico para exportação de petróleo, cuja soberania foi objeto de acordos como o Tratado de 1937 e o Acordo de Argel de 1975, assinado entre Saddam Hussein e o xá do Irã. A ruptura desse acordo, somada à instabilidade regional, abriu caminho para o conflito.
O cenário se agravou com a Revolução Iraniana de 1979 (denominada também de Revolução Islâmica), liderada por Ruhollah Khomeini, que derrubou o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi e instaurou uma República Islâmica no Irã. Esse novo regime, baseado no islamismo xiita, passou a representar uma ameaça ideológica direta ao Iraque, governado por Saddam Hussein, cuja elite política era majoritariamente sunita. O temor da expansão revolucionária para regiões como Basra e outras áreas xiitas do Iraque aumentou significativamente a tensão.
Em 22 de setembro de 1980, o Iraque iniciou a guerra com uma invasão ao território iraniano, especialmente na província de Khuzestan, rica em petróleo. A estratégia previa uma vitória rápida, com ataques aéreos e avanço terrestre. No entanto, o plano fracassou. O Irã conseguiu reorganizar suas forças, incluindo o Exército regular e os Guardas da Revolução, e passou a resistir intensamente. Batalhas importantes ocorreram em cidades como Khorramshahr e Abadan, que se tornaram símbolos da resistência iraniana.
A partir de 1981 e 1982, a guerra entrou em uma fase de estagnação, caracterizada por trincheiras e combates prolongados, semelhantes à Primeira Guerra Mundial (1914–1918). O Irã passou a utilizar ataques com grandes contingentes humanos, enquanto o Iraque investia em defesa e uso intensivo de artilharia. Nenhum dos lados conseguia obter vantagem decisiva, consolidando um impasse militar.
A partir de 1983–1984, o conflito se intensificou com o uso de armas químicas pelo Iraque, incluindo gás mostarda, em violação a normas internacionais. Paralelamente, teve início a chamada Guerra das Cidades, com bombardeios a centros urbanos como Teerã e Bagdá, atingindo diretamente a população civil. Outro desdobramento foi a Guerra dos Petroleiros, no Golfo Pérsico, onde navios foram atacados para prejudicar a economia do adversário, afetando o comércio internacional de petróleo.
A guerra também se internacionalizou. Os Estados Unidos e a União Soviética atuaram indiretamente, fornecendo apoio ao Iraque e buscando manter o equilíbrio regional. Um episódio emblemático foi o Escândalo Irã-Contras, no qual os Estados Unidos venderam armas secretamente ao Irã, mesmo apoiando o Iraque, evidenciando a complexidade do jogo geopolítico. Países do Golfo, como Kuwait e Arábia Saudita, financiaram o Iraque, temendo a expansão iraniana.
Entre 1986 e 1987, o desgaste tornou-se evidente. Ambos os países enfrentavam crise econômica, destruição de infraestrutura e enormes perdas humanas, estimadas entre 500 mil e 1 milhão de mortos. O Iraque acumulou dívidas externas significativas, enquanto o Irã sofria com isolamento internacional. O conflito atingiu seu limite operacional e social.
O fim da guerra ocorreu em 1988, com a aceitação do cessar-fogo mediado pela Organização das Nações Unidas, por meio da Resolução 598 (1987). O cessar-fogo entrou em vigor em agosto de 1988, sem alterações significativas nas fronteiras. O conflito terminou sem vencedores claros, deixando ambos os países devastados.
As consequências foram profundas. O Iraque, enfraquecido e endividado, entrou em crise e, em 1990, invadiu o Kuwait, desencadeando a Guerra do Golfo de 1991, liderada pelos Estados Unidos. Esse novo conflito resultou na derrota iraquiana e ampliou a presença militar americana no Oriente Médio. Posteriormente, em 2003, o Iraque seria novamente palco de guerra com a invasão liderada pelos Estados Unidos durante o governo de George W. Bush.
O Irã, por sua vez, consolidou seu regime e desenvolveu uma estratégia de resistência e influência regional, atuando em países como Líbano, Síria e Iraque. As tensões com os Estados Unidos continuaram, sendo intensificadas em momentos recentes, como durante o governo de Donald Trump, marcado por sanções e confrontos indiretos. A relação com Israel também se tornou um dos principais focos de tensão regional.
A guerra Irã-Iraque deixou um legado duradouro: instabilidade regional, rivalidades persistentes e um modelo de conflito baseado no desgaste e na intervenção indireta de potências. Eventos posteriores, como a Guerra do Golfo, a Guerra do Iraque e as tensões atuais envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, estão diretamente ligados a esse conflito. Mais do que um episódio histórico, a guerra representa um ponto de inflexão que continua moldando o presente e o futuro do Oriente Médio.