A guerra entre México e Estados Unidos (1846–1848) foi o resultado de um longo processo histórico iniciado ainda no início do século XIX, envolvendo independência, ocupação territorial, disputas políticas e expansão estratégica. Para compreender plenamente esse conflito, é necessário retomar suas origens na Independência do México em 1821, que marcou o fim do domínio espanhol após um processo iniciado em 1810 com o Grito de Dolores, liderado por Miguel Hidalgo, seguido pela atuação de José María Morelos e, posteriormente, consolidado por Agustín de Iturbide com o Plano de Iguala em 1821.
Após a independência, o México herdou um território vasto, porém difícil de controlar, especialmente nas regiões do Norte, como o Texas, o Novo México e a Califórnia. A instabilidade política interna, marcada pela disputa entre federalistas e centralistas, somada às dificuldades econômicas, limitou a capacidade do Estado de exercer autoridade efetiva sobre essas áreas. Para resolver esse problema, o governo adotou uma política de colonização, permitindo a entrada de colonos estrangeiros por meio do sistema de empresarios, o que levou à chegada massiva de norte-americanos ao Texas.
Com o crescimento dessa população, surgiram tensões culturais, políticas e econômicas. Os colonos, em grande parte vindos dos Estados Unidos, mantinham práticas e interesses próprios, incluindo a defesa da escravidão, o que entrava em conflito com as leis mexicanas. Em 1830, o governo mexicano aprovou a Lei de 1830, que buscava restringir a imigração e reforçar o controle sobre o território, mas essa medida gerou forte resistência.
A crise se aprofundou com a adoção do modelo centralista em 1835, sob a liderança de Antonio López de Santa Anna, que reduziu a autonomia regional e intensificou o descontentamento no Texas. Esse cenário levou à Revolta do Texas em 1835, iniciada com o episódio de Gonzales em outubro de 1835, marcando o início do confronto armado entre colonos e forças mexicanas.
O conflito evoluiu rapidamente e resultou na Independência do Texas em 2 de março de 1836, consolidada após a vitória texana na Batalha de San Jacinto em abril de 1836, quando Sam Houston derrotou as forças mexicanas e capturou Santa Anna. Apesar disso, o México não reconheceu a independência, mantendo a tensão na região.
Entre 1836 e 1845, o território funcionou como a República do Texas, sob a liderança de Sam Houston, enfrentando dificuldades econômicas, ameaças militares e instabilidade política. Durante esse período, a ideia de anexação aos Estados Unidos ganhou força, tanto por interesse texano quanto pelo projeto expansionista norte-americano, associado ao Destino Manifesto.
A anexação foi concretizada em 1845, quando o Texas foi incorporado aos Estados Unidos, provocando reação imediata do México, que considerou o ato uma violação de sua soberania. A partir desse momento, a tensão tornou-se um conflito diplomático direto entre os dois países.
O ponto central da crise passou a ser a disputa territorial entre o Rio Grande e o rio Nueces. Os Estados Unidos defendiam o Rio Grande como fronteira, enquanto o México reconhecia o Nueces como limite legítimo. Essa divergência criou uma área contestada, onde ambos reivindicavam soberania.
A crise diplomática se agravou com o rompimento das relações entre os dois países e o envio de tropas norte-americanas para a região disputada, sob ordens do presidente James K. Polk. Em abril de 1846, ocorreu o primeiro confronto armado, conhecido como o incidente de Thornton, marcando o início efetivo da guerra.
Em maio de 1846, os Estados Unidos declararam oficialmente guerra ao México, dando início a um conflito em larga escala. As primeiras batalhas, como Palo Alto e Resaca de la Palma, demonstraram a vantagem inicial norte-americana.
As campanhas militares dos Estados Unidos foram conduzidas em múltiplas frentes ao longo de 1846, incluindo o Norte do México, o Novo México e a Califórnia. Essa estratégia permitiu ocupar territórios estratégicos e enfraquecer a capacidade de reação mexicana. A superioridade em logística, artilharia e organização foi decisiva nesse processo.
Em 1847, a guerra entrou em sua fase decisiva com a invasão do centro do México. As tropas norte-americanas desembarcaram em Veracruz em março de 1847, iniciando uma ofensiva em direção à capital. Ao longo do avanço, ocorreram batalhas importantes como Cerro Gordo, Contreras e Churubusco, nas quais o México tentou resistir sob a liderança de Antonio López de Santa Anna.
O momento decisivo ocorreu em setembro de 1847, com a tomada do Castelo de Chapultepec e a consequente ocupação da Cidade do México, marcando o colapso da defesa nacional mexicana. A queda da capital tornou inevitável o fim da guerra.
O conflito foi encerrado com a assinatura do Tratado de Guadalupe Hidalgo em 2 de fevereiro de 1848, que estabeleceu os termos da paz. O tratado reconheceu a anexação do Texas, definiu o Rio Grande como fronteira e resultou na cessão de cerca de 2,4 milhões de km² de território mexicano aos Estados Unidos.
Os territórios cedidos incluíam regiões que hoje correspondem à Califórnia, ao Novo México, ao Arizona, ao Nevada, ao Utah e partes do Colorado e do Wyoming. Em contrapartida, os Estados Unidos pagaram 15 milhões de dólares ao México.
As consequências da guerra foram profundas. Para os Estados Unidos, houve uma expansão territorial significativa, consolidando sua posição como potência continental. Para o México, a perda territorial representou um impacto político, econômico e simbólico duradouro.
Além disso, a guerra intensificou debates internos nos Estados Unidos, especialmente sobre a escravidão, contribuindo para tensões que levariam à Guerra Civil. No México, a derrota acentuou a instabilidade política e influenciou o desenvolvimento do país nas décadas seguintes.
Em síntese, a guerra entre México e Estados Unidos (1846–1848) foi um processo histórico complexo, marcado por eventos decisivos como a Independência do México em 1821, a Independência do Texas em 1836, a Anexação do Texas em 1845, o Início da guerra em 1846, a Queda da Cidade do México em 1847 e o Tratado de Guadalupe Hidalgo em 1848. Esses eventos, associados a personalidades como Miguel Hidalgo, Agustín de Iturbide, Antonio López de Santa Anna, Sam Houston e James K. Polk, definiram um dos conflitos mais importantes da história da América do Norte, cujas consequências se estendem até os dias atuais.