O conflito árabe-israelense contemporâneo tem início em 1948 e se estende até 2026, permanecendo ativo e sem solução definitiva. Ao longo desse período, o que se observa não é apenas uma sucessão de guerras, mas a construção de um dos fenômenos históricos mais complexos da era contemporânea, no qual território, identidade, religião, política internacional e disputas de poder se entrelaçam continuamente. Para compreender esse processo como um todo, é necessário enxergá-lo como uma narrativa contínua, na qual cada fase não substitui a anterior, mas a incorpora, adicionando novas camadas de tensão.
O ponto de partida está na criação do Estado de Israel em 14 de maio de 1948, após o Plano de Partilha da ONU de 1947, que previa a formação de dois Estados, um judeu e um árabe. Enquanto lideranças judaicas aceitaram o plano, lideranças árabes o rejeitaram, resultando na guerra de 1948–1949, quando países árabes vizinhos invadiram o território recém-declarado. Israel resistiu, ampliou suas fronteiras além do previsto pela ONU e consolidou sua existência como Estado. Esse primeiro momento já define elementos centrais do conflito: disputa territorial, rejeição política, guerra regional e, sobretudo, o surgimento da questão dos refugiados palestinos, com cerca de 700 mil deslocados, criando uma crise que atravessaria todas as décadas seguintes.
Nos anos posteriores, entre 1949 e 1967, o conflito assume forma de tensão permanente sem solução. Não há paz formal, apenas armistícios. A Faixa de Gaza permanece sob controle egípcio, a Cisjordânia sob controle jordaniano, e Jerusalém dividida. Ao mesmo tempo, surgem infiltrações, ataques e represálias nas fronteiras, enquanto o mundo árabe reorganiza sua estratégia e Israel fortalece suas capacidades militares. A Crise de Suez em 1956 mostra que o conflito já não é apenas regional, passando a envolver grandes potências como Estados Unidos e União Soviética, inserindo o Oriente Médio na lógica da Guerra Fria.
A grande ruptura ocorre em 1967, com a Guerra dos Seis Dias. Em apenas seis dias, Israel derrota Egito, Síria e Jordânia, ocupando a Península do Sinai, a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e as Colinas de Golã. Essa vitória altera completamente o mapa e a dinâmica do conflito. A partir desse momento, a questão central deixa de ser apenas a existência de Israel e passa a ser a ocupação dos territórios palestinos. A população palestina passa a viver diretamente sob controle israelense, transformando o conflito em algo mais profundo: não apenas entre Estados, mas entre um Estado e um povo sem soberania.
Em 1973, a Guerra do Yom Kippur marca uma tentativa de reequilíbrio. Egito e Síria atacam Israel de surpresa, conseguem avanços iniciais, mas são posteriormente contidos. Embora Israel mantenha superioridade territorial, a guerra quebra a imagem de invencibilidade israelense e abre espaço para negociações. Esse momento demonstra que o conflito não pode ser resolvido apenas pela força militar.
A partir de 1967 até 1987, ocorre a consolidação da questão palestina. A Organização para a Libertação da Palestina (OLP), liderada por Yasser Arafat, assume protagonismo, inicialmente com luta armada e depois com estratégia diplomática. A causa palestina ganha reconhecimento internacional, enquanto nos territórios ocupados cresce a insatisfação com a ocupação israelense e com a ausência de um Estado próprio.
Em 1987, a Primeira Intifada inaugura uma nova fase. Trata-se de um levante popular palestino dentro da Cisjordânia e de Gaza, que muda a percepção internacional do conflito. A resistência deixa de ser apenas militar externa e passa a ser um movimento interno, envolvendo civis. Esse processo leva, nos anos seguintes, a uma tentativa concreta de solução: os Acordos de Oslo de 1993, que estabelecem reconhecimento mútuo entre Israel e a OLP e criam a Autoridade Palestina.
Entretanto, Oslo não resolve as questões centrais. Jerusalém, refugiados, assentamentos e fronteiras permanecem indefinidos. A continuidade da violência, a expansão de assentamentos israelenses e a desconfiança mútua enfraquecem o processo. O assassinato do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin em 1995 simboliza a crise interna do processo de paz. Em 2000, o fracasso das negociações leva à Segunda Intifada, muito mais violenta que a primeira.
Entre 2000 e 2011, o conflito entra em fase de radicalização. A Segunda Intifada envolve atentados, operações militares e forte repressão. Israel constrói uma barreira na Cisjordânia e intensifica o controle territorial. Após a morte de Arafat em 2004, Mahmoud Abbas assume a liderança palestina, defendendo a via diplomática. Em 2005, Israel se retira de Gaza, mas a retirada não traz estabilidade. Em 2006, o Hamas vence eleições e, em 2007, assume o controle de Gaza, dividindo o território palestino entre Gaza e Cisjordânia. Essa divisão enfraquece qualquer possibilidade de negociação unificada. Gaza passa a viver sob bloqueio e se torna palco de conflitos recorrentes, como a guerra de 2008–2009.
A partir de 2011, o conflito entra em uma fase ainda mais complexa. As revoltas árabes desorganizam o Oriente Médio, reduzindo a coordenação dos países árabes em torno da causa palestina. Ao mesmo tempo, Israel fortalece sua política de segurança e amplia assentamentos. Gaza se torna o principal foco de conflito, com guerras em 2012 e 2014, evidenciando um padrão de confrontos periódicos.
O cenário sofre nova transformação com o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que rompe a sensação de controle israelense e leva a uma resposta militar massiva. A guerra que se segue se estende até 2026, com destruição ampla da infraestrutura de Gaza, elevado número de vítimas civis e uma grave crise humanitária. A assimetria entre as capacidades militares de Israel e a vulnerabilidade de Gaza torna-se ainda mais evidente.
Enquanto isso, a Cisjordânia permanece sob ocupação, com expansão de assentamentos, aumento da violência e enfraquecimento da Autoridade Palestina. A divisão política entre Gaza e Cisjordânia continua sendo um dos principais obstáculos à solução do conflito. A dimensão regional também se intensifica, com a influência do Irã e de grupos aliados ampliando o risco de escalada.
Ao final desse percurso, o conflito apresenta características de impasse estrutural. Não há negociações efetivas, não há liderança unificada do lado palestino e não há consenso internacional capaz de impor uma solução. A solução de dois Estados, embora ainda defendida formalmente, torna-se cada vez mais difícil de implementar na prática.
Assim, o que se observa entre 1948 e 2026 é a transformação de um conflito territorial inicial em um sistema complexo de tensões permanentes. Cada fase adiciona novos elementos, mas nenhum resolve os anteriores. O resultado é um conflito que persiste, se adapta e continua moldando a política regional e global, sem perspectiva clara de resolução no curto prazo.