A Guerra da Independência da Argélia, travada entre 1954 e 1962, foi um dos conflitos mais importantes da descolonização do século XX. Suas raízes estavam na conquista francesa iniciada em 1830, quando a França passou a ocupar a Argélia e, ao longo do século XIX, transformou a dominação militar em sistema colonial permanente. A Argélia tem uma posição estratégica no Norte da África, voltada para o Mar Mediterrâneo, próxima da Europa e integrada ao espaço do Magrebe. Essa localização aumentava seu valor político, econômico e militar para a França. Em 1848, a Argélia foi organizada como departamentos franceses, o que reforçou a ideia de que aquele território fazia parte da própria França. Essa integração, porém, era profundamente desigual: os colonos europeus, chamados pieds-noirs (colonos europeus estabelecidos na Argélia francesa), tinham direitos, terras e influência política, enquanto a maioria argelina muçulmana vivia sob exclusão jurídica, pobreza rural, controle administrativo e acesso limitado à cidadania.
O nacionalismo argelino cresceu justamente dentro dessa contradição. Durante as décadas de 1920, 1930 e 1940, diferentes correntes passaram a questionar a ordem colonial. Messali Hadj representou um nacionalismo popular ligado aos trabalhadores argelinos, especialmente na França. Abdelhamid Ben Badis e a Associação dos Ulemás Muçulmanos Argelinos, fundada em 1931, defenderam a preservação do Islã, da língua árabe e da identidade cultural argelina. Ferhat Abbas, inicialmente mais reformista, buscou reconhecimento político e igualdade dentro de uma relação ainda ligada à França. A repressão de 8 de maio de 1945, em Sétif, Guelma e Kherrata, marcou uma ruptura decisiva, pois muitos argelinos concluíram que a França celebrava liberdade na Europa enquanto mantinha violência colonial na África. A confiança em reformas graduais enfraqueceu, e a ideia de independência ganhou força.
Em 1954, surgiu a FLN, Front de Libération Nationale (Frente de Libertação Nacional), criada para conduzir uma luta direta pela independência. Seu braço armado foi o ALN, Armée de Libération Nationale (Exército de Libertação Nacional). Na madrugada de 1º de novembro de 1954, data conhecida como Toussaint Rouge (Dia de Todos os Santos Vermelho), a FLN iniciou ataques coordenados contra alvos coloniais. Militarmente, esses ataques eram limitados, mas politicamente foram decisivos. Eles anunciaram que a questão argelina havia deixado de ser apenas debate reformista e se transformara em guerra de libertação. A França respondeu tratando os insurgentes como criminosos e tentando manter a ideia de que a Argélia era assunto interno francês. A FLN, por sua vez, buscava mostrar que a Argélia era uma nação colonizada com direito à autodeterminação.
A guerra expandiu-se pelo campo, pelas montanhas, pelas aldeias e pelas fronteiras. Regiões como Aurès, Kabylia e Constantinois tornaram-se fundamentais para a guerrilha, pois ofereciam relevo favorável, redes camponesas e tradição de resistência. A FLN dependia da população civil para alimentos, esconderijos, mensagens e circulação. A França respondeu com operações militares, varreduras, vigilância e deslocamentos forçados para camps de regroupement (campos de reagrupamento), tentando separar a guerrilha de suas bases sociais. Após as independências de Marrocos e Tunísia, em 1956, as fronteiras passaram a oferecer retaguarda para militantes argelinos. A França construiu a ligne Morice (Linha Morice), a partir de 1957, para bloquear rotas de infiltração, especialmente na fronteira tunisiana.
A Batalha de Argel, entre 1956 e 1957, levou a guerra para o centro urbano e político da Argélia francesa. A FLN organizou redes clandestinas na capital, especialmente na Casbah (bairro antigo de Argel), buscando visibilidade internacional. A resposta francesa, comandada por paraquedistas ligados ao general Jacques Massu, envolveu controle sistemático do espaço urbano, prisões em massa, interrogatórios violentos e repressão intensa. A França conseguiu desarticular a rede urbana da FLN, mas pagou alto preço político. As denúncias de tortura e abusos corroeram sua legitimidade internacional e tornaram a guerra argelina um problema moral para a própria República Francesa.
O conflito também provocou uma crise profunda na França. A Quarta República Francesa mostrou incapacidade de conduzir uma guerra longa e politicamente explosiva. Em 13 de maio de 1958, colonos europeus e militares em Argel pressionaram Paris em defesa da Algérie française (Argélia francesa). A crise abriu caminho para o retorno de Charles de Gaulle, em 1º de junho de 1958, e para a criação da Quinta República Francesa, em 4 de outubro de 1958. De Gaulle, inicialmente apoiado por defensores da permanência francesa, passou gradualmente a defender a autodeterminação, declarada em 16 de setembro de 1959. Essa mudança radicalizou setores coloniais, levando à Semana das Barricadas, em janeiro de 1960, ao putsch (golpe militar) dos generais em abril de 1961 e à ação terrorista da OAS, Organisation de l’Armée Secrète (Organização do Exército Secreto), criada para impedir a independência.
O desfecho veio com os Acordos de Évian, assinados em 18 de março de 1962, que estabeleceram o cessez-le-feu (cessar-fogo) de 19 de março de 1962 e abriram caminho para o referendo de autodeterminação. Em 1º de julho de 1962, a população argelina aprovou maciçamente a independência. A França reconheceu oficialmente a soberania argelina em 3 de julho, e a independência foi celebrada em 5 de julho de 1962, exatamente 132 anos depois da tomada de Argel em 1830. A vitória argelina consolidou a FLN como força dominante do novo Estado e transformou a Argélia em símbolo mundial da descolonização.
As consequências foram profundas. A saída em massa dos pieds-noirs, o drama dos harkis (argelinos muçulmanos auxiliares das forças francesas), a reconstrução do Estado argelino, a centralidade da memória revolucionária e as tensões entre França e Argélia marcaram o período posterior. A guerra demonstrou que uma potência colonial podia vencer batalhas e perder legitimidade histórica. A independência argelina nasceu da combinação entre guerrilha, mobilização popular, diplomacia, crise francesa, pressão internacional e desgaste moral do colonialismo. Por isso, a Guerra da Independência da Argélia permanece essencial para compreender o fim dos impérios europeus, a formação dos Estados africanos contemporâneos e as marcas duradouras da violência colonial no mundo moderno.