Assim, pouco a pouco, o manual busca apresentar as reais necessidades do coletivo, desmontando muitos dos modelos vigentes. O manual não dirá exatamente quantos chuveiros terá por pessoa, mas apontará esses dados como elementos necessários ao diálogo da construção do projeto coletivo. Também não responde qual seria o melhor tamanho das janelas para iluminar o galpão, mas faz perceber o impacto negativo da luz em uma janela mal posicionada. Ou, ainda, como pequenas mudanças no planejamento do espaço podem facilitar seus trabalhos e aumentar seus ganhos: por exemplo, reduzir as longas distâncias para descarregar uma bombona numa baia, ou ter presença de um ralo para a limpeza e lavagem do piso, podem melhorar o aspecto do galpão. Os recicladores tomam ciência da importância desses detalhes na hora de qualificar e construir seu espaço de trabalho. Isso é o que chamamos de tecnologia: ter o conhecimento e vivência para assim ter respostas a certos problemas surgidos na sua prática profissional.
“O Manual Construir e Reformar um Galpão de Reciclagem” mostra que ele não deve somente ser um espaço onde se faz a separação do material conhecido como lixo: ele é muito mais que isso. O galpão deve acolher todas as partes fundamentais para o exercício, formação e crescimento da profissão de reciclador, que, embora recente, demanda uma série de necessidades em seu labor diário. Não pretende oferecer um modelo pronto de construção que pode ser aplicado indiscriminadamente em qualquer lugar ou para qualquer grupo, ao contrário, sugere que cada galpão deve ser cuidadosamente planejado, pensado, construído com a participação de todos os associados, caso a caso, sem desconsiderar as leis da economia e da racionalidade.
Economia é a valorização do trabalho e o cuidado com o planeta, as leis da natureza, os cuidados com o mundo e com os seres humanos imersos nele. Queremos alertar que um galpão de reciclagem não significa uma caixa receptora, num terreno vazio, onde tudo é preparado para a chegada do caminhão com material trazido pela prefeitura e a posterior chegada do comprador. Um galpão de reciclagem não pode assumir a lógica produtiva na qual os trabalhadores assumem o papel ou função de peças de uma máquina de separar lixo e de limpeza ambiental. De alguma maneira, mostramos que boa parte dos galpões existentes são pouco produtivos e, sobretudo, que os seres humanos não são colocados nele como sujeitos. Seus espaços não são organizados em vista do bem estar dos trabalhadores, apenas do ponto de vista de uma exploração brutal da força humana dos que passam mais de 8 horas exercendo nele seu trabalho. O trabalho realizado em condições desfavoráveis influencia diretamente a questão produtiva e, consequentemente, sua rentabilidade.
Assim, o galpão deixa de ser somente um lugar de geração de renda, para tornar-se um local catalisador de relações humanas no bairro ou na vila. Ansiamos que os recicladores e gestores, por meio do debate e conhecimento do espaço, tornem-se pessoas capazes de refletir sobre seu cotidiano do trabalho da reciclagem, que possam refletir de forma crítica sobre suas condições de trabalho e que sejam capazes de determinar seu futuro, suas vidas e seu lugar no mundo. Tomando ciência do que o espaço do galpão significa, será possível reivindicar e dialogar com os responsáveis técnicos e políticos de suas necessidades na mesma altura, ou melhor: já explicando para eles como deve ser um galpão. Assim, de alguma maneira, o manual converte-se também num importante instrumento pedagógico na formação dos trabalhadores. O manual sugere temas para os diálogos entre os associados para determinação de suas necessidades de trabalho, mostrando para os recicladores, educadores populares e administradores municipais que o galpão de triagem é algo importante para o local onde se insere. Enfim, esse manual destina-se a recicladores, educadores populares, prefeituras, técnicos de prefeituras, escolas, arquitetos, engenheiros, políticos, ambientalistas, ONGs e a quem mais possa interessar.
Na hora de conceber um galpão, é necessário não somente ter presentes os aspectos econômicos, mas também os diálogos necessários com as pessoas que nele habitarão. Desta forma, procura-se destacar a importância de um espaço pensado através das particularidades de cada trabalhador(a), levando em conta as diferenças sociais, culturais e de gênero no cotidiano das atividades coletivas. Acreditamos que a riqueza e a diversidade das relações sociais que se produzem dentro desses espaços de trabalho são fundamentais para o processo de concepção deles. O reciclador deve, não somente ter o saber da separação do material, mas também o conhecimento das possibilidades de qualificar seu espaço, como a construção de refeitórios e cozinhas devidamente equipadas, vestiários e banheiros, ou mesmo a necessidade de uma sala de descanso após as refeições, uma sala de alfabetização, um telecentro, enfim, toda uma série de elementos que devem ser apontados pelos associados para o crescimento e capacitação.
Este trabalho é fruto de uma longa pesquisa de doze anos de vivência e perambulações pelos galpões de Porto Alegre e de algumas cidades do interior do Rio Grande do Sul. Esta experiência mostrou-nos que a luta pela humanização desses espaços faz com que os trabalhadores se sintam orgulhosos de seu trabalho, melhorando seu desempenho e suas relações de convívio. Esses galpões talvez possam ser vistos também, poeticamente, como locais de reciclagem de vida para os trabalhadores, mas, curiosamente, foram eles que reciclaram nossa mentalidade e sensibilidade ao mundo.
FERNANDO FREITAS FUÃO
SUMARIO
Apresentacao
Os trabalhadores
Espacos de reciclagem
Como funciona
As três zonas dos galpões
Fluxo de produção
Bancadas, mesas e esteiras
Gaiolas
Rejeitos e baias externos
Onde construir
Os tipos de galpões
Como construir
Estrutura
Modulação
Áreas
Paredes
Aberturas
Iluminação natural e ventilação
Pisos
Drenagem
Vegetação
Espacos socioculturais
O galpão como aglutinador social - Pedro Figueiredo e Fernando Fuão
Os espaços socioculturais
Sugestões de atividades para o centro sociocultural
Administração
Telecentro
Sala de ensino e alfabetização
Biblioteca
Lojinha
Oficinas (costura, artesanato, mosaico)
Sala de dança e teatro
Oficina de papel reciclado
Cozinha/refeitório
Sanitários e vestiários
Gestao do Galpao
Gestão
Identidade
Limpeza
Segurança do galpão
Categorias ou grupos de plásticos
Achei...!
Fernando Freitas Fuão é pesquisador do CNPq com a pesquisa Manual: Galpões de Reciclagem, um estudo tipológico e normativo. Professor titular da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Participou e coordenou diversas ações de extensão, entre elas a Reabilitação do Galpão Profetas da Ecologia e a Reabilitação do Galpão de Reciclagem Associação Catador Novo Cidadão. Atualmente coordena o programa Universidade na Rua (Mec - Prorext. UFRGS), voltado para moradores de rua. É autor dos livros Lixivia (i) mundi (Prorext - DEDS. UFRGS, 2015), Os galpões de Reciclagem e a Universidade, (Rocha Eduardo e Fuão, F., org. UFPEL. 2008), Derrida e Arquitetura (Fuão, F.; Solis, D.; UERJ, 2014), entre outros. Co-organizador da Coleção Inscritos no Lixo. (PROREXT, 2015. Fuão e Mello, B.). Líder do grupo de pesquisa CNPq Galpões de Triagem: Arquitetura, Design e Educação. Desde 2004 estuda os Galpões de Reciclagem e divulga seus trabalhos nos seguintes blogs:
http://inscritosnolixo.
http://galpoesdetriagem.
http://fernandofuao.blogspot.