As pequenas casas dos porquinhos desempenham enquanto símbolo de soberania, a diferenciação entre ricos e pobres; soberanos e bestas, ainda que esse binômio não exista como propôs Derrida. Há todavia uma sinistra faceta da casa dita ‘civilizada’ que será abordada como representação da Cultura como contraposição brutal à Natureza, ao selvagem e bestial condenados pelo cristianismo. Jaques Derrida ao referir-se a questão da animalidade, nas fábulas, em A besta e o Soberano I, concluiria que:“não há nada nelas que não seja teo-zoológico e teo-antropo-zoológico.”
No caso da fábula dos três porquinhos há mais atores além dos animais: aparecem três casas, cada uma pertencendo a um porquinho, desempenhando um papel importantíssimo. A fabulação dos três porquinhos necessitará da hierarquia das tipologias de suas casas para expressar as bases do capitalismo ao articular: trabalho, processo civilizatório, e por consequência domesticação humana. Antecipadamente poderíamos dizer não há nada nessa fábula que não seja ‘arché-teo-antropo-zoológico’.
As casas, cada uma a seu tempo, assinalam a diferenciação na qualidade da produção. Através dessas casas colocarei em ação o papel do trabalho como elemento inerente a religião, principalmente a partir do século XVIII e sua implicação com a moradia. Esse fato é ainda pouco estudado ainda no meio acadêmico por uma série de motivos que se revelarão ao longo dessas páginas. Esse pragmatismo trabalhista que encontramos no porquinho Prático vem a tempos operando na formação das mentalidades das crianças, para induzir-lhes sutilmente o investimento de seu tempo futuro. É a produção e geração desses corpos biopolíticos voltada para o trabalho que tem sustentado este modelo chamado civilização, no qual vivemos. No fundo, ao observar essas três casas estaremos também ante uma velha questão filosófica: ‘quem somos nós?’, e ou, ‘o que fizeram de nós’. Descobriremos que nessa fábula sob a pele de porco dormita personagens de toda espécie, principalmente os que chamaremos aqui de ‘porcos soberanos’. A moral da estória dos três porquinhos inspirou gerações a trabalharem arduamente para o sucesso, na esperança de que o esforço, um dia, as levassem a se tornarem vencedoras ante o lobo mau.
O livro é fartamente ilustrado com Collages de Rufino Becker e do autor.
SUMÁRIO
prefácio 5
porcos soberanos 9
culto ao lobo 57
um lobo além do bem e do mal 75
a casa do cícero 143
a casa do prático 185
devoração 237
o lobo da estepe 257
fábulas 277
referências bibliográficas 283
posfácio 289
o circo 305
© Fernando Freitas Fuão
1a edição 2024
Direitos reservados desta edição
Capa: Rufino Becker
Fernando Freitas Fuão é arquiteto, professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS. Autor de diversos Livros: (disponível google play livros)
A casa de Robinson Crusoé (ebook)
A Collage como trajetória amorosa (ebook)
El collage como trajetoria trayectoria amorosa (espanol)
emBRASSAI en le Nuit (Portugues)
Viagem ao fim do Mundo (portugues)
Manual: Como construir e reformar um Galpão de Reciclagem