Há pecados que marcham às claras, vestidos com as cores da rebelião aberta, e há pecados que se escondem sob vestes respeitáveis, habitando silenciosamente os corredores da alma. Entre estes últimos, poucos são tão sutis, persistentes e perigosos quanto o orgulho. Ele não precisa de circunstâncias favoráveis para florescer. Cresce tanto no solo árido da incredulidade quanto no jardim cultivado da experiência cristã. Alimenta-se das fraquezas dos ímpios e, não raramente, tenta transformar as próprias bênçãos dos santos em combustível para sua existência.
O coração humano possui uma estranha inclinação para admirar a si mesmo. Mesmo depois de alcançado pela graça, continua carregando resquícios daquela antiga disposição que deseja ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus. O homem caído sonha com autonomia; o homem regenerado luta contra ela. A carne deseja receber a coroa, ainda que a Escritura declare repetidamente que toda coroa deve ser lançada aos pés do Cordeiro.
Talvez nenhuma pergunta seja mais desconcertante para o orgulho humano do que aquela levantada pelo apóstolo Paulo aos coríntios: “Que tens tu que não tenhas recebido?” Numa única sentença, toda pretensão humana é exposta à luz da verdade. O intelecto que impressiona, a posição que distingue, os recursos que prosperam, a influência que se expande, a fé que persevera, a esperança que consola e até mesmo o arrependimento que conduz à vida são apresentados diante do tribunal divino e interrogados acerca de sua origem. E a resposta é inevitável: tudo procede das mãos de Deus.
Não é sem razão que o apóstolo escolhe esse caminho. O orgulho sempre prospera onde a memória da graça enfraquece. Quando o homem esquece o que recebeu, começa a imaginar que produziu. Quando perde de vista a generosidade do Doador, passa a exaltar a si mesmo como se fosse a fonte dos próprios dons. Assim, a alma se afasta lentamente da humildade evangélica e se aproxima daquela antiga mentira que acompanha a humanidade desde o Éden — a ilusão de que pode encontrar em si mesma motivo para glória.
Neste livro-sermão, o Sr. Spurgeon conduzido pelo Espírito Santo leva o leitor por uma jornada de exame espiritual profundamente bíblica. Com a habilidade de um pastor e a precisão de um teólogo, ele não se limita a condenar manifestações visíveis de arrogância. Sua preocupação é mais profunda. Ele leva a pá das doutrinas da graça até as raízes ocultas da autossuficiência humana. Seu objetivo não é apenas cortar os galhos do orgulho, mas arrancá-lo da terra do coração.
Ao longo destas páginas, veremos que a humildade cristã não nasce da negação dos dons recebidos, mas do correto entendimento de sua origem. O Evangelho não exige que ignoremos as bênçãos de Deus; exige que nos lembremos continuamente de quem as concedeu. Quanto mais claramente enxergamos a soberania da graça, menos espaço resta para a exaltação do eu. Quanto mais contemplamos a glória de Cristo, menos fascinados ficamos conosco mesmos.
Este é, portanto, um sermão sobre o orgulho, mas é ainda mais um sermão sobre a graça. É uma exposição que derruba para restaurar, humilha para curar e esvazia para encher. Ao confrontar a vaidade humana, não nos deixa diante de um vazio desesperador, mas nos conduz à abundância daquele de cuja plenitude todos recebemos, e graça sobre graça.
Que o leitor percorra estas páginas com espírito ensinável e coração reverente. E que, ao final desta jornada, toda confiança na carne seja reduzida ao pó, enquanto a glória de Deus resplandeça com brilho ainda maior diante dos olhos da alma. Pois a verdadeira grandeza do homem começa precisamente onde termina sua vanglória, e a verdadeira liberdade é encontrada quando toda a honra retorna Àquele a quem ela sempre pertenceu.
Divino Cordeiro
CHARLES HADDON SPURGEON
O Príncipe dos Pregadores
Spurgeon é amplamente reconhecido como um dos maiores pregadores da história do cristianismo. Seus sermões revelam uma eloquência comparável à de Crisóstomo e uma habilidade literária semelhante à de Agostinho. Possuía a firmeza bíblica e a coragem dos reformadores, bem como a piedade e o zelo dos puritanos, dos quais é considerado o mais célebre herdeiro.
Nascido em Essex, Inglaterra, em 19 de junho de 1834, era o primogênito de dezesseis irmãos, filho de John e Eliza Spurgeon. Encontrou a salvação em Jesus Cristo entre os anos de 1850 e 1851, durante uma intensa tempestade de neve, ao entrar em uma pequena capela e ouvir um sermão que transformou sua vida.
Em janeiro de 1852, aos 17 anos, tornou-se pastor da Igreja Batista de Waterbeach, ao norte de Cambridge, e rapidamente ganhou fama como pregador. Sua habilidade de comunicação e profunda compreensão das Escrituras atraíam grandes multidões.
Em dezembro de 1853, foi convidado a pregar na Capela de New Park Street, a maior igreja batista ao sul de Londres, que mais tarde se tornaria o Tabernáculo Metropolitano. Em abril de 1854, foi consagrado pastor dessa igreja, cargo que exerceu até sua morte, em 31 de janeiro de 1892, aos 57 anos. Durante seu ministério, a congregação cresceu tanto que foi necessário construir um novo templo, com capacidade para seis mil pessoas.
Além de seu exemplo de vida santa e suas realizações impressionantes, um dos maiores legados de Spurgeon são seus sermões. Neles, encontramos uma união harmoniosa de verdade e piedade, beleza e bondade, luz e calor — e, acima de tudo, encontramos Jesus Cristo. Seus sermões eram publicados semanalmente e distribuídos por todo o mundo, alcançando milhões de pessoas.
Outro aspecto notável de sua vida é a vastidão e a qualidade de sua obra escrita, comparável à de João Calvino. Spurgeon escreveu cerca de 150 livros e mais de 3.500 sermões. Entre suas obras mais conhecidas estão O Tesouro de Davi, um comentário sobre os Salmos, e Lições aos Meus Alunos, uma série de palestras dirigidas a estudantes de teologia. Também fundou o Colégio de Pastores, que formou centenas de ministros, e o Orfanato Stockwell, que oferecia cuidado a crianças carentes. Era amplamente reconhecido por sua generosidade e dedicação ao bem-estar do próximo, frequentemente doando grandes somas a causas beneficentes.
Sua saúde começou a declinar na década de 1880, mas ele continuou pregando e escrevendo até o fim. Spurgeon faleceu deixando um legado duradouro, que ainda hoje influencia profundamente cristãos ao redor do mundo.
Divino Cordeiro