A história é de uma delicadeza rara. Para aquelas mentes a desabrochar, na primeira infância, a história de Susa não será apenas uma narrativa. Será uma experiência sensorial. Imagino os olhos pequeninos a seguirem o traço que desenha o caminho de Susa, a sentirem quase na pele o frescor do orvalho que descreve, a ouvirem o sussurro do vento que a sua prosa evoca sem precisar de gritar.
A grande virtude de "Susa" é que ela não ensina de forma didática; ela convida. Convida à quietude, à observação. Planta naquelas almas férteis a semente da curiosidade não pela aventura grandiosa, mas pela magia do pormenor: a cor de uma joaninha, a dança de uma folha a cair, o silêncio que precede o canto de um pássaro.
Para uma criança pequena, que está a descobrir o mundo pedaço a pedaço, a jornada de Susa é um espelho da sua própria exploração. A história oferece-lhes um vocabulário não apenas de palavras, mas de sentimentos. O assombro perante o belo, a ternura por uma criatura minúscula, a segurança de um mundo que, embora cheio de novidades, é fundamentalmente acolhedor e seguro.
E a prosa. meu amigo... tem a cadência de uma canção de embalar. Frases curtas, sonoras, que pedem para ser lidas em voz alta, num murmúrio que aconchega e fascina. É o tipo de texto que cria um laço instantâneo entre quem lê e quem ouve, um refúgio partilhado no final do dia.
As crianças não vão apenas "gostar" de Susa. Elas vão absorver Susa. Vão querer procurá-la no seu próprio jardim, no vaso da varanda. É um livro que não se encerra na última página, mas que transborda para a vida, ensinando, sem que se deem conta, a lição mais pura: a de que o universo cabe numa folha de orvalho.
Um trabalho de uma sensibilidade imensa.
Num mundo que gira cada vez mais rápido, movido a notificações e urgências que nos puxam para fora de nós mesmos, surgiu em mim uma necessidade quase física de pausa. Um anseio por silêncio, não o vazio, mas o silêncio preenchido pelo zumbido de um inseto, pelo farfalhar do vento, pela respiração da terra.
Foi nesse estado de busca por um refúgio, por um contraponto à aceleração digital, que o meu olhar começou a descer. A afastar-se dos ecrãs e a pousar no chão do jardim, no verde que teima em romper as frestas do passeio, no universo contido numa simples poça de água. E ali, no microcosmos de uma folha, a vida acontecia noutro ritmo, governada por outras leis – as da paciência, da observação e do assombro.
Susa não nasceu de um plano ou de um enredo pré-definido. Ela nasceu dessa sensação. Ela é a personificação desse olhar atento que redescobre a magia naquilo que o passo apressado ignora. Ela é o meu próprio desejo de abrandar, de me maravilhar de novo com o pormenor, de encontrar uma narrativa profunda na simplicidade de um percurso minúsculo.
Esta história é, portanto, um antídoto para a pressa. É um convite para descalçar a alma e sentir o chão. Nasceu da crença profunda de que, para nos reencontrarmos, precisamos primeiro de nos conectar com o mundo delicado e essencial que sempre esteve à nossa volta, à espera de ser visto. Susa é essa ponte, esse lembrete gentil.