As
ondas
golpeavam
os
penhascos
de
Valedouro
com
uma
violência
capaz
de
partir
embarcações ao meio. Relâmpagos rasgavam as nuvens, iluminando por breves instantes as
ruínas de uma antiga fortaleza erguida sobre a costa. Os pescadores da região conheciam
aquelas pedras desde a infância, mas evitavam aproximar-se delas depois do pôr do sol. Diziam
que, nas noites de tempestade, vozes antigas atravessavam os corredores abandonados.
Caio Ventura não acreditava em histórias de fantasmas.
Aos vinte e seis anos, ele já havia enfrentado contrabandistas, atravessado florestas infestadas
de animais selvagens e sobrevivido a três expedições que terminaram em desastre. Tinha uma
cicatriz atravessando a sobrancelha esquerda e outra, muito maior, escondida sob a camisa: uma
marca de queimadura que começava no ombro e descia até as costelas.
Aquela segunda cicatriz era a razão pela qual ele não dormia direito havia quatro anos.
Naquela noite, Caio estava dentro de uma pequena embarcação quando avistou uma luz
vermelha brilhando entre as rochas. Não era o farol da vila. O farol permanecia apagado desde
que uma parte de sua estrutura desabara no inverno anterior.