Em Menino negro, Richard Wright reconstrói sua infância e juventude no sul segregado dos Estados Unidos no início do século xx. A narrativa tem dois temas principais: a fome e o desejo de escrever.
A fome é primeiro a fisiológica. A mais pura e plana falta do que comer. Dessa falta derivam outras: de dignidade, de reconhecimento, de um lugar no mundo. E a escrita é uma forma de criar um espaço seguro para o ser, sendo negro.
O regime de segregação sulista era eficiente em manter a população negra despossuída, empobrecida e brutalizada. Miséria, abuso, violência e humilhações eram pão de cada dia. Cumpria então, cotidianamente, trabalhar com e contra essas condições talhadas para nulificar a vida de pessoas negras e pobres. Qualquer semelhança com nossas favelas não é mera coincidência.
Se um dos encantos da literatura é desvendar estruturas de sentimentos coletivos e, assim, criar "comunidades imaginadas", ler Menino negro — à luz da realidade brasileira — nos permite transcender fronteiras nacionais e entender como se constrói um olhar e uma dicção da experiência negra atlântica.
RICHARD WRIGHT nasceu em 1908 no Mississippi, sul dos Estados Unidos, região onde à época vigorava um duro regime de segregação racial. "Filho nativo" (1940), seu livro de estreia, foi um sucesso instantâneo. A obra abriu caminho para que ele se tornasse um dos grandes nomes da ficção literária nos Estados Unidos e o pai da literatura afro-americana moderna. Escreveu também contos, novelas e ensaios, dentre os quais se destacam "The Outsider" (1953) e "White Man, Listen!" (1957). Morreu em 1960, exilado em Paris.