Uma tradução moderna da célebre obra de Descartes Discurso do Método. Seu título original completo pode ser traduzido como Discurso do Método para Bem Conduzir a Razão e Buscar a Verdade nas Ciências, mais a Dióptrica, os Meteoros e a Geometria. Esta edição contém uma cronologia da vida e das obras de Descartes, um glossário de terminologia cartesiana e um posfácio do tradutor que examina a importância de suas contribuições para a filosofia e a ciência modernas, com especial atenção ao racionalismo e ao método da dúvida. O material complementar situa o Discurso no desenvolvimento geral da obra cartesiana e em seu lugar na história intelectual do Ocidente. A busca de Descartes por um raciocínio claro e ordenado também exerceu profunda influência sobre a matemática, a física e os métodos posteriores de investigação científica.
O método cartesiano apresentado por René Descartes nesta obra desempenhou papel decisivo na formação da filosofia e da ciência modernas. Escrito na primeira metade do século XVII, o Discurso marca um afastamento da escolástica, ainda fortemente dependente das tradições aristotélicas e da autoridade dos ensinamentos recebidos, e propõe um método de investigação fundamentado na razão, na evidência e na análise sistemática.
Descartes atribui papel central à dúvida metódica e ao raciocínio ordenado como instrumentos para alcançar verdades fundamentais. Em uma época em que a investigação filosófica permanecia estreitamente ligada a pressupostos religiosos e metafísicos tradicionais, essa abordagem representava uma mudança profunda.
O texto assume em parte a forma de uma autobiografia intelectual. Descartes narra seu percurso da dúvida à certeza e apresenta essa trajetória como a descoberta de um novo método filosófico. É aqui que aparece sua célebre formulação do cogito "penso, logo existo" como fundamento capaz de resistir à dúvida, ainda que de maneira menos formal do que nas posteriores Meditações.
A aparente simplicidade do estilo pode ocultar a radicalidade do projeto. Ao fundamentar a certeza no exercício individual da razão, e não na autoridade herdada da tradição, Descartes põe em questão uma parte considerável do edifício intelectual da escolástica medieval e propõe uma nova base para o conhecimento.
Esses princípios tiveram grande importância no desenvolvimento do método científico e influenciaram a maneira como gerações posteriores abordaram problemas tanto na filosofia quanto na ciência. Descartes insiste na clareza, na ordem e no emprego de verdades simples como fundamento para raciocínios mais complexos. Seu método seria posteriormente adotado, modificado ou criticado por pensadores como Newton e Kant.
O uso da dúvida como instrumento para alcançar certeza também preparou o terreno para novas formas de ceticismo e para posteriores maneiras analíticas de tratar problemas filosóficos. O Discurso do Método participou, assim, do desenvolvimento intelectual que conduziria ao Iluminismo, ao colocar a investigação racional e a crítica da autoridade tradicional no centro da reflexão filosófica.
O Discurso servia originalmente de introdução a três ensaios científicos Dióptrica, Meteoros e Geometria funcionando simultaneamente como manifesto filosófico e demonstração prática do método proposto.
Ao descrever a maneira como chegou à formulação de seus princípios, Descartes constrói cuidadosamente uma narrativa de formação intelectual que legitima sua abordagem e, ao mesmo tempo, lhe permite evitar uma confrontação direta com determinadas controvérsias teológicas.
Suas quatro regras do método podem ser resumidas da seguinte forma: aceitar apenas aquilo que se apresente com clareza e distinção; dividir cada dificuldade em tantas partes quantas forem necessárias; avançar ordenadamente do simples ao complexo; e realizar revisões suficientemente completas para evitar omissões. A aparente simplicidade dessas regras encobre uma mudança profunda na maneira de conceber a busca e a justificação do conhecimento. A influência da obra ultrapassou amplamente os limites da filosofia, participando tanto da formação do método científico moderno quanto da consolidação da ideia moderna de um sujeito racional autônomo.