Mary Wollstonecraft Shelley nasceu em Londres, em 30 de agosto de 1797, em um ambiente intelectual raro para qualquer época. Filha de Mary Wollstonecraft, filósofa e escritora pioneira na defesa dos direitos das mulheres, e de William Godwin, escritor, jornalista e pensador político de influência anarquista, Shelley cresceu cercada por debates sobre razão, liberdade e moralidade. Dez dias após seu nascimento, sua mãe morreu em decorrência de complicações no parto, e essa perda precoce marcaria profundamente a autora, que mais tarde exploraria, em sua obra, temas como a orfandade, o abandono e a criação da vida. Mary teve acesso à vasta biblioteca do pai e conviveu com figuras centrais do pensamento e da literatura inglesa. Ainda adolescente, demonstrava vocação para a escrita, compondo contos e ensaios em um estilo já repleto de reflexão filosófica e sensibilidade moral. O pai, entretanto, não via com bons olhos o envolvimento amoroso da jovem com o poeta Percy Bysshe Shelley, um dos nomes mais expressivos do romantismo inglês, casado na época. O relacionamento escandalizou a família e levou o casal a fugir para o continente europeu em 1814, iniciando uma vida de intensas viagens e criação literária. Durante uma estadia às margens do Lago de Genebra, em 1816 — ano conhecido como "o ano sem verão", devido à erupção do vulcão Tambora que cobriu a Europa de nuvens frias e escuras —, Mary, Percy, Lord Byron e John Polidori reuniam-se nas longas noites chuvosas para ler e discutir histórias de terror. Byron sugeriu que cada um escrevesse seu próprio conto sobrenatural. Dessa provocação nasceria Frankenstein: ou o Prometeu moderno, publicado em 1818, quando Mary tinha apenas 20 anos. O romance reflete as inquietações intelectuais de sua época. A obra dialoga com os avanços científicos do século XIX, como as experiências com eletricidade e galvanismo, que buscavam reanimar tecidos mortos, e com as discussões filosóficas sobre os limites do conhecimento humano. Frankenstein transcendeu o gótico e inaugurou um novo tipo de narrativa, tornando-se referência fundadora da ficção científica moderna. O livro combina reflexão moral, especulação científica e crítica social, explorando a solidão, a responsabilidade do criador e as consequências éticas do poder da ciência. Alguns estudiosos sugerem que a autora tenha conhecido, por meio de leituras ou relatos, figuras como o alquimista Konrad Dippel, alquimista e teólogo que viveu no Castelo Frankenstein, famoso por ter inventado, por acaso, o ácido cianídrico. Ele tinha duas ideias fixas: fabricar ouro a partir de metais inferiores e dar vida a defuntos. Dippel foi expulso de Estrasburgo, acusado de exumar corpos "para bizarras experiências anatômicas". Tais hipóteses permanecem como conjecturas, mas ajudam a compreender o contexto cultural em que Mary formulou sua história. Esse castelo, situado próximo à cidade de Darmstadt, na Alemanha, é envolto em uma aura de mistério que há séculos alimenta o imaginário popular. Construído na Idade Média, o local serviu de moradia para diversas famílias nobres, mas ganhou fama sobretudo por estar associado ao nome de Konrad Dippel, que acreditava ser possível prolongar a vida humana e até reanimar cadáveres, utilizando substâncias como o Óleo de Dippel, o qual ele próprio criara. Boatos de que exumava corpos para suas experiências contribuíram para cercar o local de lendas sombrias. Quando Mary Shelley viajou pelo vale do Reno com Percy Shelley, em 1814, é provável que tenha ouvido histórias sobre o castelo e seu excêntrico morador, o que levou alguns estudiosos a sugerirem que o nome e parte da atmosfera de seu romance tenham se inspirado nessas narrativas.
Mary Wollstonecraft Shelley nasceu em Londres, em 30 de agosto de 1797, em um ambiente intelectual raro para qualquer época. Filha de Mary Wollstonecraft, filósofa e escritora pioneira na defesa dos direitos das mulheres, e de William Godwin, escritor, jornalista e pensador político de influência...