Há livros que se leem com os olhos. Outros, como este, se atravessam com a alma. "Cântico da Origem" não é apenas um livro de poemas: é um êxodo íntimo, uma travessia mística onde o verbo criador, a queda da linguagem, o peso da promessa e o clamor da esperança se encarnam em versos que oscilam entre a ferida e a revelação. Escrito com o rigor da poesia e o temor da teologia, edii Camara nos conduz não por uma leitura, mas por uma peregrinação.
A cada capítulo, o Gênesis é menos repetido e mais reencontrado. “Que haja luz” deixa de ser enunciado litúrgico para se tornar, em cada leitor, um despertar interior. Em “A folha de figueira”, a vergonha não está apenas em Adão: está em nós, nos gestos com que mascaramos o sagrado. E quando lemos “Sodoma em Mim”, percebemos que o juízo não é apenas histórico, mas íntimo — uma convocação ética à conversão do olhar e da escuta.
A poesia aqui é sacramento: visível e invisível, humana e divina, antiga e urgentemente contemporânea. edii Camara não escreve para explicar Deus, mas para cantar com Ele, desde dentro da poeira, desde os restos de Babel, desde o sopro que ainda nos sustenta.
Para compreender a gênese de "Cântico da Origem", é preciso descer — como quem visita uma caverna sagrada — aos meandros da psique de seu autor, "edii Camara". Tal como os profetas bíblicos ou os místicos do deserto, ele não escreve por impulso decorativo, mas por necessidade existencial. Este livro é menos um conjunto de poemas do que um ato de escavação da alma: uma arqueologia espiritual em busca da primeira voz — aquela que disse “Haja luz” dentro dele mesmo.
É nesse sentido que ouso dizer: "Cântico da Origem" foi escrito com o corpo inclinado sobre o abismo e os olhos voltados ao alto.
A psique de edii Camara se constrói sobre uma tensão dialética: de um lado, o peso da tradição — bíblica, moral, existencial; do outro, o desejo da liberdade artística, do voo, do risco de reinterpretar o sagrado. Em sua interioridade pulsa a pergunta que fez tremer patriarcas e profetas: "Quem sou eu diante de Deus?”
Escrever poesia a partir da Escritura não é exercício de vaidade, mas de temor. Há no gesto de Camara a mesma hesitação que se percebe em Moisés diante da sarça: ele sabe que pisa em solo sagrado, mas pisa descalço, com a alma em carne viva. A ousadia de reinterpretar o Gênesis — não para negá-lo, mas para reencontrá-lo — vem de um desejo profundo de reconciliar fé e carne, passado e presente, o divino e o humano.
Ao reescrever mitos fundantes da cosmovisão judaico-cristã, Camara encarna o ofício de um novo Adão: aquele que, pela poesia, renomeia. Mas esta renomeação não é gratuita — é terapêutica. Ele parece dizer, a cada verso: “Se a linguagem foi corrompida na queda, que o poema seja sua redenção.”
Na sua psique vibra, portanto, um conflito profundo com a linguagem — aquela mesma que, em Babel, se partiu, e que no livro tenta ser reunificada num canto cósmico. "Cântico da Origem" é a tentativa de restaurar o Verbo original através da linguagem do símbolo, da imagem, da sugestão. A palavra poética, para Camara, tem poder ontológico: ela não descreve apenas — ela gera.
O pano de fundo psíquico do autor é o deserto — tanto real quanto metafórico. Há, em sua interioridade, um exílio constitutivo. Ele é homem de Minas, mas carrega ecos do Oriente. Caminha com os pés no Brasil, mas com a memória simbólica impregnada de areia, tamareiras, estrelas e fogo. A espiritualidade que dele emerge é, portanto, errante. O poema é sua tenda temporária — um lugar para dormir à sombra de Deus.
Camara, em seu âmago, talvez perceba que a fé tradicional já não basta se não for renovada pela arte. E que a arte, por sua vez, é estéreo se não tocar o eterno. Sua psique é assim construída como uma escada de Jacó: nela sobem e descem vozes, imagens, medos, salmos, dúvidas — e uma esperança de que ainda seja possível ver o rosto de Deus no espelho da poesia.
A psique de Camara é marcada por um retorno obsessivo ao princípio: ao barro, à luz, ao nome, à linhagem. Ele não foge da origem: ele a enfrenta. E isso implica sofrimento. Como em Agostinho, há nele um coração inquieto, que só descansa quando reencontra a voz que o criou. Como em Jó, há em seu imaginário um Deus que fere e consola.
Por isso o livro é tão intensamente encarnado: fala do sangue, da nudez, da vergonha, da fome, da perda, da seca, do luto. É um salmo composto não apenas com a alma, mas com os ossos. Escrever foi, para edii Camara, um ato de lembrança e de reconciliação. Ele canta para lembrar o que o tempo tentou apagar — e para nomear o que o silêncio esconde.
No núcleo profundo de sua psique está o reconhecimento de que o divino não se expressa apenas na doutrina, mas no mistério. E que o mistério só pode ser tocado pela linguagem da arte. Assim, edii Camara transforma o livro de Gênesis em uma grande liturgia poética: cada poema, um altar; cada verso, um incenso; cada silêncio, uma oração.
Seu espírito é místico, mas não alienado. É teológico, mas não dogmático. Ele crê na poesia como via legítima de acesso ao sagrado — e ousa fazer do poema um lugar teofânico. "Cântico da Origem" é, em última análise, um gesto de confiança radical: de que mesmo na fragmentação do mundo moderno, ainda se pode cantar o nome de Deus — não com a certeza dos dogmas, mas com o tremor dos profetas.
"Et vidit Deus quod esset bonum" .. Ao terminar este mergulho na psique de edii Camara, posso afirmar que sua obra nasce do mesmo sopro que moldou o homem do barro: um desejo de sentido, uma sede de luz, uma memória do Paraíso. E como o próprio Gênesis, "Cântico da Origem" é mais que narrativa — é revelação.
Camara não escreve "sobre" Deus: escreve "a partir" de Deus, como quem recebeu a tarefa de transformar o indizível em canto. E isso — essa ousadia — é, por si só, um ato sagrado.