Com os pés no chão, os olhos ligados no cotidiano e os ouvidos muito atentos à trama infinita das falas que se projetam ao redor — do avô que inventava provérbios ao poeta compondo "canções tradicionais" para as filhas, do poema mais antigo da língua inglesa aos papos com amigos e familiares, dos áudios pessoais aos pronunciamentos de autoridades e especialistas no noticiário —, a imaginação de Lerner se alimenta de uma atenção detalhista para a vida, capaz de encontrar poesia em tudo de que os dias são feitos.
Em seu já clássico ensaio O ódio pela poesia, que também chega agora às livrarias em edição da Fósforo, o autor afirma que "'poesia' é uma palavra para o lugar de encontro entre o privado e o público, entre o interno e o externo". Sem dúvida, As luzes, traduzido por Maria Cecilia Brandi, é um belo exemplo dessa forma de ver a arte dos versos, porque cada poema reflete em nossa direção, brilha intensamente mesmo a partir de triviais cenas domésticas — catar piolhos ou conversar com as meninas sobre o estranho trabalho de "modelar vogais", que, aliás, Lerner executa lindamente.