Se sois como eu, em coisas de romances (que no resto, Deus vos livre, a vÃŗs, ou Deus me livre a mim), gostareis de povoar a imaginaÃ§ÃŖo de cenas que se viram, que se realizaram, e deixaram de si vestÃgios, que fazem chorar, e fazem rir. Esta dualidade, que caracteriza todas as coisas deste globo, onde somos inquilinos por mercÃĒ de Deus, Ê de per si um infalÃvel sintoma de que o meu romance Ê o Ãēnico verdadeiro.
Eu sou um homem que sabe tudo e muitas outras coisas. NÃŖo espreito a vida do meu prÃŗximo, nem ando pelos salÃĩes atrÃĄs de uma ideia que possa estender-se por um volume de trezentas pÃĄginas, que, depois, vil espiÃŖo, venho vender-vos por 480 rÊis. Isso, nunca.Â
Tudo isto que eu sei, e muito mais que espero saber, Ê-me contado por uma respeitÃĄvel senhora, que nÃŖo vai ao teatro, nem aos cavalinhos, e que tem necessidades orgÃĸnicas, mas todas honestas, e, entre muitas, Ê predominada pela necessidade de falar onze horas em cada dez. Desde que tive a ventura de conhecÃĒ-la, nÃŖo invejo a sorte de ninguÊm, porque vivo debaixo das mesmas telhas com esta boa senhora, e posso satisfazer a mais imperiosa necessidade da minha organizaÃ§ÃŖo, que Ê estar calado. E que nÃŖo podemos falar ambos ao mesmo tempo.
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